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terça-feira, 2 de março de 2010

Os segredos de Eli Gottlieb

Em entrevista à FOLHA, o escritor norte-americano comenta seu novo romance lançado no Brasil e defende que “tudo é autobiográfico na literatura”
Eli Gottlieb não está nada ansioso. Quanto ao filme que será baseado em seu novo livro, “O homem que você vai ver”, a maior expectativa do autor estadunidense resume-se ao dinheiro: “Espero apenas receber um cheque grande, agradável e que eu possa descontá-lo”, conta o escritor, em entrevista concedida por e-mail, de Boulder, Colorado, onde vive. O produtor Jeff Sharp, que já levou “Boy´s Don´t Cry” às telonas, adquiriu os direitos para filmar o último romance de Gottlieb, mas ainda não há previsão para o início das gravações.
Há dez anos atrás, Eli Gottlieb virou uma celebridade literária ao publicar sua primeira obra, “The boy who went away” (sem tradução para o português). O autor venceu o Rome Prize, foi condecorado pela Sociedade Britânica de Autores e seu primeiro livro ainda foi eleito como romance do ano pelo New York Times.
Fortemente autobiográfico, o enredo de “The boy Who went away” mostra Fad, um garoto autista, de 15 anos, que, por apresentar imprevisíveis momentos de violência, é internado pelos pais em uma instituição longe de sua família. A história é narrada pelo irmão mais novo de Fad, Denny, o alter ego do escritor.
Em sua segunda obra, “O homem que você vai ver”, lançada em 2008 nos Estados Unidos e em 2009 aqui no Brasil, Gottlieb surge com um delicado enredo policial. Na trama, o jovem escritor Rob Castor assassina sua ex-namorada com disparos de revólver e, depois, comete suicídio. Tal como Gottlieb, Castor também ganha fama ao publicar seu primeiro livro e vive um período em que não consegue escrever sua nova obra. Mas o livro não se resume apenas ao enredo policial.
Narrado pelo amigo de Castor, Nick Framingham, “O homem que você vai ver” é, na verdade, um livro sobre relações familiares. A perspectiva pessimista da vida em família, com mentiras, segredos, falsidades e infidelidades, é retratada conforme os mistérios da obra são revelados.
Seguindo uma forte tendência da literatura contemporânea, Eli Gottlieb, assim como os norte-americanos Phillip Roth e Paul Auster, e o sul-africano J. M. Coetzee, não abre mão da influência de sua própria vida ao compor suas histórias: “É o assunto que eu conheço melhor e com mais intimidade. Muitos escritores escrevem um primeiro livro fortemente autobiográfico e, em seguida, se afastam do tema. Mas há outros, como Phillip Roth, que, simplesmente, não conseguem ficar longe. Na literatura, tudo é autobiográfico, no sentido de que todos os personagens de uma obra são retirados do cérebro do autor”, afirma o escritor.
“O homem que você vai ver” foi classificado como “um triunfo”, pelo Los Angeles Times, e “irresistível”, conforme o New York Times Book Review. Um único pecado na obra: Eli Gottlieb não precisava ter investido no romance policial. Não que pareça deslocado ou até mesmo forçado. Mas a metamorfose do narrador e o emaranhado de segredos e traições já são o bastante para prender o leitor nessa viagem pelas veredas da amizade, dos relacionamentos amorosos e da condição humana.

Serviços
Título: O homem que você vai ver
Autor: Eli Gottlieb
Editora: Rocco
Preço: 36,00 (239 págs.)
Tradução: Maira Parula
Publicada na Folha de Londrina (18/02/2010).

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Da roça para o Big Brother

Filho de agricultor e cabeleireira, o engenheiro agrônomo maringaense, Eliéser Ambrósio, 25, é o galã da nova edição do programa
Quando Eliéser Ambrósio decidiu se aventurar no universo da moda, em 2003, teve de ir contra o seu próprio pai: “Não apoiei a ideia dele porque eu tinha preconceito com esse meio, por ter muito homossexuais”, revela o agricultor Valdir Ambrósio, 50.
Na época, Eliéser ainda cursava o curso de Agronomia, na Universidade Estadual de Maringá. Se dependesse da vontade paterna, o modelo também seria agricultor: “Sempre quis que ele seguisse meu caminho, que ficasse na roça comigo”, conta o pai. A confiança no seu próprio potencial revela um pouco da personalidade do participante da edição do Big Brother Brasil 10.
O primeiro convite para desfilar surgiu por acaso. Eliéser malhava, tranquilamente, em uma academia, quando foi abordado por um dos organizadores do concurso Miss e Mister Maringá. O resultado? Foi contemplado com o segundo lugar, mesmo sem dominar os macetes da passarela. Daí em diante, conciliou o curso de Agronomia com a vida de modelo fotográfico e foi eleito Mister Goioerê e Mister Ecologia do Paraná.
Eliéser Ambrósio nasceu em Maringá, mas, logo nos seus primeiros dias de vida, foi levado à cidade de São João do Ivaí, onde viveu até os 14 anos. Com essa idade, o garoto que sonhava em ser médico conseguiu uma bolsa de estudos, em um colégio em Maringá, graças ao seu talento como jogador de vôlei.
No colégio, ele não passou em branco. A maringaense Thais Pimenta, 21, lembra que, ainda jovem, o modelo já despertava paixões e euforia nas estudantes. Ela recorda que, em 2004, formou um par com Eliéser, durante uma dança numa festa de debutante: “Causei inveja nas minhas amigas porque todas morriam de paixão por ele”. Thais acredita que “todos vão gostar dele no programa”, e elogia o colega, relembrando a noite: “ele era um bom dançarino”.
Perguntar por Eliéser a amigos, colegas e parentes, é esbarrar na mesma característica: bom humor. Juliana Mendes, 19, diz que o amigo sempre consegue provocar o riso das pessoas que estão à sua volta: “Ele é muito simpático, carismático, engraçado, faz amizade com as pessoas em todos os lugares em que está”. Ela conta que Eliéser também faz imitações do personagem de desenho animado, Bob Esponja, e do ex-apresentador Clodovil Hernandes.
O primo de segundo grau, Victor Hugo Ambrósio, 24, lembra uma das peças pregadas por Eliéser, ao ser aprovado no vestibular para Agronomia, em Maringá: “Ele escreveu ‘medicina’ na testa e saiu na rua para pedir dinheiro com o pessoal. No dia seguinte, o jornal da cidade mostrou a foto dele bem na capa. Todos os parentes e amigos ligaram, dando os parabéns para os pais e até para a avó dele!”, lembra, em meio a risadas.
E a série de histórias engraçadas continua. No meio da festa de sua formatura, Eliéser interrompeu a apresentação da banda e pediu para dar uma notícia séria. Quando todos ficaram em silêncio, o modelo disparou: “meu pai tem bigode!”. Na mesma noite, quando entrava no salão acompanhado de sua mãe, surpreendeu a todos ao deitar no chão e iniciar uma sessão de flexões.
Publicada na Folha de Londrina (12/01/10).

Na onda do Charme Chulo

Quarteto curitibano que mistura rock com música caipira se apresenta hoje, em Maringá

Prepare o chapéu de palha, a calça jeans, arrume uma camisa xadrez e calce um confortável par de botas: O Charme Chulo está de volta a Maringá. Considerado um dos grandes nomes do rock independente brasileiro, o grupo lança hoje à noite, no MPB Bar, seu segundo álbum de músicas inéditas. Intitulado “Nova onda caipira”, o disco é uma mistura de rock com música caipira, e consegue superar o primeiro CD, “Charme Chulo” (2007), responsável por projetar o nome do quarteto no cenário musical.
Como em toda banda que enfrenta a gravação do segundo álbum, o Charme Chulo também viveu o medo de não fazer algo à altura do trabalho inicial: “Foi um grande desafio porque a gente teve menos tempo para conceber o disco, diferentemente do CD de estreia, que foi uma coletânea da nossa vida até aquele momento”, observa o vocalista e compositor Igor Filus.
Nas 11 faixas do “Nova onda caipira”, que é distribuído pelo selo Volume 1, o quarteto surpreende. Além do amadurecimento musical, a banda cresceu também nas composições das letras. Em “Moda do Acerto”, uma divertida moda de viola, a violência urbana é retratada com boas doses de humor. A classe política, pela primeira vez, é ironizada nos versos da canção “Brasil sacanagem”. Tudo, é claro, com melodias originais e riffs dançantes, como na excelente “Fala comigo, Barnabé!”.
Explorando o regionalismo como temática, Igor Filus revela sua paixão por Maringá, cidade onde nasceu, homenageando o lendário time de futebol maringaense da década de sessenta, com a balada “Galo Maringá”.
O grupo não é o único a explorar o hibridismo entre a música caipira e a influência do rock oitentista. O som produzido pelas bandas Supercordas (SP), Matuto Moderno (SP), Os Pamonheiros (SP) e Bico do Corvo (MG), faz com que o vocalista do Charme Chulo vislumbre “um movimento novo” no rock nacional: “Há uma onda de bandas que usam violão e sons mais acústicos, com influências da música caipira e que estão no underground”, ressalta.
Além de tudo, a apresentação da banda é uma grande diversão, com direito a dancinhas desengonçadas de Igor Filus e covers dos ídolos Tonico e Tinoco – eles costumam executar “Moreninha Linda”, um dos sucessos consagrados da dupla.
Serviço:
Quando – Hoje, 22h.Onde – MPB Bar, Av. Curitiba, 210, Zona 4, em Maringá. Quanto – R$ 15 ou R$ 10 (antecipado) na Livraria Espaço, no shopping Maringá Park.
Publicada na Folha de Londrina (04/12/09).

Maringá vive o mês do rock

A proposta de levar o rock independente a um novo público é ousada. O produtor cultural Flávio Silva, um dos organizadores do Junho do Rock, que está acontecendo este mês em Maringá, diz que a ideia do festival é desmistificar o conceito que as pessoas possuem sobre este gênero musical: “O pessoal liga o rock ao som do metaleiro, e rock não é só isso. Tem bandas de vários estilos. O rock sempre costuma estar ligado a músicos drogados, bêbados, mas esse tipo de gente pode aparecer em qualquer banda. A gente quer mostrar que rock é coisa de gente normal”, afirma.
O festival segue com pocket show grátis na universidade estadual, nas faculdades Maringá e Unifamma, e também na praça de alimentação do Shopping Maringá Park.
Ontem à noite, foi a vez do Vanguart explorar novos palcos na cidade. O grupo que emplacou o hit “Semáforo” e está lançando o CD “Multishow registro Vanguart”, levou suas guitarras distorcidas e boas doses de melancolia para o teatro Calil Haddad.
Realizar os shows em lugares como o MPB Bar é uma estratégia de Flávio Silva para ampliar e fortalecer o cenário do rock independente de Maringá. Afinal, atualmente existem apenas dois bares, Tribos e Pub Fiction, que recebem bandas interessadas em executar músicas próprias.
“O Tribos e o Pub Fiction precisam de uma estrutura melhor para o público e para a banda. Faltam um camarim para os músicos, além de iluminação de qualidade e som. Eu quero abrir novos espaços com o festival”, diz Silva.
O produtor musical e polêmico jurado do programa Astros, do SBT, Carlos Eduardo Miranda, faz uma palestra sobre a produção musical independente, no dia 26, às 16 horas, no Shopping Maringá Park. A palestra também vai contar com a participação de jornalistas e músicos.
Além de Miranda, os destaques do Junho do Rock são as bandas Nervoso e os Calmantes (RJ) e a paranaense Charme Chulo, que, além de um pocket show no shopping, no dia 25, encerra a programação do festival, no dia 26, com uma apresentação no MPB bar.
Próximos shows:
Nevilton – pocket show no dia 18, às 22h, na Universidade Estadual de Maringá. Entrada grátis.
Nervoso e os Calmantes – Show no dia 20, às 23h, no Tribos Bar. Os ingressos custam R$ 10,00 e podem ser adquiridos na livraria Espaço do Livro, no Shopping Maringá Park.
Charme Chulo – Shows dia 25, às 18h, no Shopping Maringá Park e dia 26, às 23h, no MPB Bar.
Publicada na Folha de Londrina (12/06/09).

"A vida é assim: a vida é pouca"

Em entrevista à FOLHA, o poeta maranhense Ferreira Gullar reflete sobre sua produção literária e revela que o poema nasce da surpresa

Quando José Ribamar Ferreira compôs “A Luta Corporal”, livro que ele considera como a sua estreia na literatura, não faltaram críticos para apedrejar a obra e o autor: “Eu fui chamado de vigarista e de maluco!”, recorda o poeta, em meio a boas gargalhadas.
Considerado por Vinícius de Moraes como “o último grande poeta brasileiro”, Ferreira Gullar, que não lança um livro de poemas inéditos desde 1999, está prestes a saciar a curiosidade dos seus leitores, com a publicação de “Em Alguma Parte Alguma”. Em 2010, quando o poeta e crítico de artes completará oitenta anos de idade, a editora José Olympio pretende realizar uma série de exposições, debates e homenagens, além de lançar uma biografia do autor e uma nova edição de seus poemas em cordel, compostos na década de 60.
Em seu apartamento, em Copacabana, no Rio de Janeiro, Ferreira Gullar fala sobre a gênese do poema, a necessidade de escrever poesia engajada e justifica o seu fazer literário: “A poesia existe porque a vida é pouca.”

Você tem noção de que é o maior poeta brasileiro?
Eu acho ótimo que as pessoas digam isso. É bom ser acolhido, reconhecido, porque eu escrevo para os outros. Mas eu perguntaria da mesma forma como o Drummond perguntou uma vez: “Qual é a régua que usaram para medir isso?”.
Qual é o seu objetivo como poeta?
Ajudar o leitor a estar bem na vida, a ter uma visão da vida mais rica, mais generosa. Eu acho que o poeta inventa a vida. Todos nós nos inventamos e reinventamos a vida. O cara nasce, ele não é nada, não é ninguém. Ele não tem nome, não sabe falar, não tem noção de nada. Depois, passa a ser educado. As outras pessoas que já existiam ajudam a dar uma noção da realidade a ele, que, com o tempo, começa a se inventar, a pensar por sua conta, a discutir o que é ensinado. A vida é assim: a vida é pouca. E a poesia faz parte dessa invenção da vida. A poesia existe porque a vida é pouca.
Você chega a demorar até uma década para lançar um livro de poesia, mas sempre está publicando livros teóricos sobre arte. Qual a diferença em compor estes dois gêneros?
Eu não decido quando vou escrever um livro no terreno da poesia. Escrevi, recentemente, um livro sobre a arte concreta e neoconcreta. O livro tinha um objetivo, eu sabia o que iria escrever. A poesia não é assim. Eu não planejo. De repente, surge um poema, alguma coisa da vida me surpreende, me espanta, me maravilha, eu me questiono e resulta em um poema. Esse poema vai se juntar a outro, que vai compor um livro. Tem unidade? Tem. Não foi planejado, mas tem unidade. A unidade sou eu mesmo, porque na hora em que a vida me espanta, a resposta que eu dou tem a ver com as coisas que estou pensando. É a mesma pessoa que está respondendo aqueles espantos, aquelas surpresas.
Como é a gênese do poema?
Em geral, o que deflagra o poema sempre é uma emoção. O poema sempre nasce quando algo me surpreende. Às vezes, eu escrevo um poema e, depois de meses, quando releio o poema para consertar alguma coisa, daquele mesmo poema nasce um outro, como se fosse um galho, uma outra coisa inesperada. Não é só a vida que surpreende a gente. A própria poesia também surpreende a gente. E eu sempre me emociono, porque é a descoberta de um lado inesperado das coisas.

Em qual poema a emoção foi mais intensa?

O poema em que eu fiquei mais tempo nesse estado foi o Poema Sujo. Há certos poemas em que eu fico meia hora, até mesmo um dia, em um estado especial que me faz escrever o poema. Mas passar meses, emocionado, como no caso do Poema Sujo, foi inesperado. Isso nunca tinha acontecido antes, nunca aconteceu depois e eu acho que dificilmente voltará a acontecer.

Você é muito exigente com seus poemas?
Eu sou muito exigente com o que eu escrevo. Até aquilo ser dado como pronto, demora. E mesmo que não demore tanto, passa por um crivo de muito rigor. Para escrever bobagem, eu não deixo nascer. Como qualquer pessoa, estou sujeito a entrar por um descaminho qualquer. Eu não tenho complacência comigo. É preferível escrever dois poemas bons, do que escrever dez mais ou menos. O livro não precisa ser grande: ele tem que ser bom.

Gullar, como é que você analisa as críticas que fizeram sobre as suas obras? A crítica sempre foi justa com você?
Quando eu publiquei “A Luta Corporal”, eu fui chamado de vigarista e de maluco (risos)! A crítica se dividiu. Uns diziam que era um livro genial, que iria mudar a poesia brasileira, e outros afirmavam: “Esse cara é um vigarista!”. Houve críticos de prestígio que escreveram contra o livro e, depois, se arrependeram. Mas eu entendo. Eu também já errei, opinando sobre pintores, fazendo crítica de arte. Por muitas vezes, fui injusto com um ou outro artista. Eu sou um crítico rigoroso com relação à arte contemporânea. Na maioria das vezes, acho que não é arte.

Por que não compor crítica literária?
Eu não gosto de escrever sobre literatura. Eu não me considero um crítico literário. Não gostaria de ser critico literário. Acho que não condiz com a minha condição de poeta e de escritor, escrever sobre a poesia dos outros, criticar a poesia dos outros. Não tem cabimento fazer isso.

A falta de engajamento político na literatura contemporânea é uma característica boa ou ruim?
Estar engajado ou não estar engajado politicamente é uma opção de cada escritor. Eu estive engajado politicamente em um momento em que a coisa política era muito presente no País. Havia a luta pela reforma agrária, pela reforma da sociedade. Hoje, isso não está na pauta. Se alguém quiser fazer poesia engajada, tudo bem. É uma opção. Não é obrigado a fazer, nem é crime fazer.

O povo brasileiro é um bom público de literatura?
Não é como deveria ser. Um País do nosso tamanho, com uma população de quase 190 milhões, deveria ter um público maior. Mas está melhorando, e eu acho que, pouco a pouco, esse público vai se ampliando. Essas coisas são muito difíceis. Não é uma coisa para acontecer de repente. Não há uma fórmula para resolver isso.

Publicada na Folha de Londrina (07/05/09).

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A nova fase de Júpiter Maçã

Músico gaúcho surpreende o público maringaense com performance sóbria; em entrevista, revela viver um momento de “checagem e retrospecto”

Flávio Basso recentemente passou três meses enfurnado em uma chácara, a fim de realizar uma “checagem existencial”, de acordo com a sua própria definição. Mal terminou o retiro, Basso, que responde pelo codinome de Júpiter Maçã, já está demonstrando algumas mudanças em seu comportamento imprevisível.

Quem esperava contemplar o roqueiro camaleônico completamente embriagado, rolando pelo palco do Tribos Bar, ao melhor estilo Amy Winehouse, frustrou-se. Sereno e tranquilo, Júpiter Maçã apresentou seu último disco, o excelente ‘Uma Tarde na Fruteira’, pela primeira vez em Maringá, no último fim de semana.

Em entrevista para a FOLHA, o músico multifacetado afirma que está vivendo um momento de reflexão e que sua obra é “mais expansiva” do que o cenário underground.

Você se considera um artista camaleônico?

Eu tenho observado que eu sou um cara que muda muito de trabalho para trabalho e cada fase, de certa forma, consegue ser traduzida em álbum. Eu sou um artista bem mutante ou mutável. Olhando para mim, em retrospecto, eu detecto o quão eu me transformo.

Qual é a sua fase favorita?

É difícil dizer a minha fase favorita. Tem algumas coisas introspectivas, outras mais glamurosas. Tem o período mod, o exibicionista e os períodos mais lisérgicos, em que eu não brincava de lisergia, era uma coisa séria. Eu vivi todos os períodos intensamente. Agora estou em um período de olhar para todos eles. É um período de checagem e retrospecto, de revisitação, de “look around”. Esse show atual tem passado por todos os momentos da minha carreira. Mas eu continuo criando e eu já tenho as novidades. Eu sinto um disco latente chegando, que pretendo começar a gravar nas próximas semanas. Esse disco vai traduzir o meu período atual.

Como você lida com o cenário independente?

É um independente que fica de raspão no mainstream. O main flerta comigo e eu acabo, por várias circunstâncias, sendo um artista indie.

E com relação ao universo underground?

Embora minha formação, e desde que eu adotei o pseudônimo Júpiter Maçã, minha escola seja underground, eu não me considerado aprisionado ao underground. Minha essência pode ser under, mas a obra é mais expansiva. Eu não tenho que lutar por certos valores.

O que você acha da diferença entre idades do seu público?

O público vai da faixa dos teens até os quarentões, os cinquentões. Eu acho isso muito interessante, porque por trás disso tem a arte. A soma do que poderia traduzir o meu trabalho é música, são os poemas, a maneira como eu concebo isso em um álbum, o jeito da interpretação, o grupo que está envolvido trabalhando comigo, tudo isso é um reflexo da engrenagem.

É possível ganhar dinheiro com rock?

Existem bons momentos e maus momentos. Eu faço um malabarismo com as minhas equações.

Qual foi a maior lição que você aprendeu no cenário underground?

Nunca seja um bunda mole!

Publicada na Folha de Londrina (22/04/09).

O eterno romantismo do Roupa Nova

Em Maringá, integrante da banda diz que ainda se emociona tocando ‘Whisky a Go Go’ e afirma que o grupo merece ‘um pouco mais de respeito’

Gravado no lendário estúdio Abbey Road, onde os Beatles imortalizaram a maior parte de suas canções, “Roupa Nova em Londres” é o novo disco de inéditas do sexteto carioca, que põe fim a um jejum de oito anos sem lançar um CD dedicado exclusivamente às novas composições. Na última sexta-feira (3), o grupo apresentou o show da nova turnê, em Maringá, à beira da piscina, no Country Clube.

Munida de um dos repertórios mais conhecidos do pop nacional, que conta com músicas como “Dona”, “Anjo”, “Seguindo no Trem Azul” e “Whisky a Go Go”, a banda alternou o formato do show entre o acústico e o elétrico.

Além de alguns vídeos exibidos nos telões, reunindo imagens dos músicos tocando na Inglaterra e até um boneco de placa de trânsito que interagia com a plateia, pouca coisa diferenciou a atual apresentação da banda das apresentações realizadas entre as décadas de 80 e 90. Quanto à presença de músicas novas – apenas três canções foram incluídas, o público respondeu de forma indiferente. Para recuperar o ritmo do show, os integrantes cinquentões tiveram de recorrer novamente aos sucessos românticos, executando “Sapato Velho”, “Meu Universo é Você” e “Chuva de Prata”.

No bis, o Roupa Nova se propôs a homenagear os grandes nomes da música, tocando alguns covers, em um longo pout-pourri. Misturando Bee Gees com Pink Floyd, Rolling Stones, Creedence e Guns and Roses, o Roupa Nova encerrou o show e a sua homenagem inusitada aos clássicos do rock com “Rock and Roll all Nite”, do Kiss.
Em entrevista concedida antes da passagem de som, em Maringá, o tecladista e um dos vocalistas do Roupa Nova, Ricardo Feghali, falou sobre o novo disco da banda e rechaçou o rótulo de “brega”, afirmando que o Roupa Nova merece ser tratado pela crítica com “um pouco mais de respeito”.

Qual foi a primeira sensação ao entrar no Abbey Road?

Taquicardia (risos)! Nós quase morremos do coração! Eu pensava em tudo aquilo que aconteceu lá dentro: Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e U2. Aí, eu falei: Pôxa, eu sou do Roupa Nova! O que eu estou fazendo aqui? O som da sala é maravilhoso, nunca foi reformada. Foi lindo, emocionante. Vocês já regravaram algumas canções dos Beatles.

Por que escolheram gravar She´s Leaving Home nesse novo disco?

A gente sempre teve uma influência muito forte dos Beatles. Nos shows do acústico um, incluímos “Hey Jude” e “Yesterday”. No Roupa Nova, todas as decisões são votadas: a maioria leva. Dessa vez, a gente decidiu entre “She’s Leaving Home”, “Because” e “Eleanor Rigby”.

Vocês hesitaram em gravar esse disco de inéditas?

Hoje em dia é muito perigoso fazer um disco inédito, porque as pessoas ficam sempre comparando as novas músicas com os grandes sucessos, e, na verdade, não tem de fazer comparação. Nós só resolvemos fazer o inédito, quando sentimos que o nível de composição estava alto, estava bacana.

Qual a diferença entre o Roupa Nova de agora e o Roupa Nova de 1981, do primeiro disco?

A diferença desse novo disco é que nós estamos mais maduros. A gente está cada vez mais ouvindo, aprendendo e tocando. O Roupa Nova não tem um líder, um cara que fala mais e um cara que fala menos. A gente vai um aprendendo com o outro, aprendendo com o público e aprendendo com a vida.

O grupo já foi rotulado como “brega”, em diversos momentos da carreira. Por que você acha que isso aconteceu?

Isso aconteceu porque a gente começou como uma banda de baile e sempre estouramos com músicas românticas. E, na visão de algumas pessoas, a música romântica é brega. Eu não acho isso. Música romântica é música romântica. A crítica deveria olhar um pouquinho para trás e ver que a nossa banda, que tem quase 60 sucessos, merece só um pouco mais de respeito. Pô, a gente tem quase 30 anos de carreira!

É possível compor sobre o amor sem ser cafona?

Claro! Tem uma dosagem, uma maneira certa de não ser piegas, ao falar sobre o amor com um pouco de poesia. Não é chato ter de tocar “Whisky a Go Go” em todas as apresentações? Não é chato tocar, porque o pessoal interage tanto e o carinho da galera é tão grande que a gente fica mocionado como se fosse o primeiro show.
Publicada na Folha de Londrina (09/04/09).

Rafinha Bastos evita humor engajado

Durante show em Maringá, o apresentador do CQC elogia Lula mas não poupa críticas a Collor e Jarbas Vasconcellos

Padre Marcelo, pagodeiros, judeus, Xuxa e até moradores de Rondônia: todos foram alvos do comediante Rafinha Bastos, apresentador do programa televisivo CQC (Custe o Que Custar), no espetáculo humorístico intitulado A Arte do Insulto. Rafinha, que costuma satirizar o universo da política brasileira na bancada do CQC, encontrou o Teatro Marista, em Maringá, completamente lotado por jovens e adolescentes, durante as duas sessões realizadas esta semana na cidade.

“Ronaldo (o fenômeno) é tão gordo que tentou entrar na internet, e não conseguiu. Adivinhe por quê? Ele não coube”; “O programa de TV do Padre Marcelo é feito para velhinhas com Alzheimer”; e diversas outras piadas, impublicáveis, revelaram que, pelo menos no palco, política é um assunto a ser evitado. Citações sobre o atual momento político e irônicas críticas sociais – as maiores qualidades do CQC – não foram explorados como recursos cômicos.

Durante esta entrevista concedida minutos antes da apresentação, Rafinha Bastos afirma que a eleição do ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL) para presidir a Comissão de Infraestrutura do Senado, é “uma palhaçada”, e diz que as polêmicas declarações do senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE), publicadas recentemente na Revista Veja, revelam que o peemedebista está “um pouco gagá”.

Como você analisa a qualidade dos programas humorísticos veiculados na televisão brasileira?

É preciso pensar que a TV aberta é para o povo. Zorra Total e A Praça É Nossa, os dois grandes programas de humor, estão no ar durante todo esse tempo porque eles tem qualidade. Eles podem não ser atraentes para pessoas como eu, com terceiro grau completo, ensino superior e formação cultural, mas se esses programas conseguiram ficar no ar, é porque são bons.

O humor do CQC consegue cumprir uma função social?

O principal objetivo do CQC é divertir. É um humor engajado, tem uma pegada mais jornalística e aborda temas como política e economia. Eu não tinha referência de alguém que já havia misturado jornalismo com humor. Eu acho que eu consegui cumprir uma função social em algumas matérias. Eu fiz uma matéria sobre a situação das creches, em Curitiba; cheguei a fazer uma matéria sobre cestas básicas e sobre cadeias de favores. O quadro Proteste Já, no programa, também cumpre uma função social.

É fácil fazer piada em um país como o Brasil?

É ainda mais difícil, porque a concorrência é mais forte. A piada já está pronta no Brasil, e é preciso tomar cuidado para não ser repetitivo. Nada é mais engraçado do que uma sessão do Senado. O Brasil é um país rico para a comédia. O humorista só precisa ser engraçado e criativo.

Qual a sua opinião sobre o ex-presidente Fernando Collor de Mello presidindo a Comissão de Infraestrutura do Senado?

Eu realmente não entendo como esses caras voltam. Eles são meio Highlander. O Michel Temer (PMDB-SP) já está no terceiro mandato como presidente da Câmara dos Deputados. O José Sarney (PMDB-AP) também foi eleito novamente para a Presidência do Senado. O caso do Collor é uma palhaçada, é uma patifaria, é triste. A classe política está tirando sarro da nossa cara. Apareceu até um cara com um castelo!

Você acha o senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE) um sujeito oportunista ou íntegro?

Ele está um pouco gagá. Ele soube da situação do PMDB a vida inteira e fez uma declaração vazia, sem apontar nomes. É corajoso, mas vazio. É preciso falar de quem se trata. Não adianta ofender de uma forma covarde. Além do mais, ninguém foi atrás, investigar do que se trata.

O presidente Lula Inácio Lula da Silva é um bom presidente?

O presidente Lula é um bom presidente que foi ajudado pelo cenário internacional, em uma época maravilhosa. Mas hoje, nós estamos vivendo tempos difíceis. Somente com o próximo presidente, vamos entender se o Lula era mesmo “o cara”.

Publicada na Folha de Londrina (12/03/09).