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sábado, 13 de fevereiro de 2010

A Manaus de Hatoum

Em "A cidade ilhada", livro de contos do amazonense Milton Hatoum, Manaus é o centro de suas tramas delicadas, poéticas e surpreendentes
É comum um escritor iniciar sua trajetória literária publicando contos. E, depois, com a experiência adquirida nas histórias curtas, partir para a composição de narrativas mais longas, dedicando-se à novela ou ao romance. Com o amazonense Milton Hatoum, autor do aclamado “Dois irmãos”, o trâmite foi diferente.
Seu primeiro livro publicado, o romance “Relato de um certo oriente” (1989), foi bem acolhido pela crítica especializada, venceu o prêmio Jabuti e, desde aquela época, já mostrava algumas características literárias que reapareceriam em suas obras, como o regionalismo, a prosa poética e o objetivo de imortalizar Manaus.
Depois de três Jabutis seguidos – além de “Relato de um certo oriente”, os romances “Dois irmãos” (2000) e “Cinzas do Norte” (2005) também foram contemplados com o prêmio –, o escritor apostou no diferente.
No ano passado, a Companhia das Letras lançou “A cidade ilhada”, volume reunindo alguns de seus contos publicados em jornais e revistas, no período de 1990 e 2008, além das histórias inéditas. Tanto na novela “Órfãos do Eldorado”, publicada há dois anos, quanto nos contos, Milton Hatoum revela-se um autor saboroso em suas concisões. Seu ritmo de narrativa delicado conduz, sempre com belas imagens, as 14 histórias de “A cidade ilhada”.
No primeiro conto, Hatoum regressa à Manaus de sua infância para compor, com pureza e inocência, sobre a primeira noite de um grupo de jovens amigos no prostíbulo “Varandas da Eva”. Tal como o grupo de amigos que vai ao balneário das mulheres, praticamente todos os personagens do livro estão em Manaus.
Em “Dois poetas da província”, Hatoum resgata a passagem do filósofo Jean-Paul Sarte por Manaus; “Um oriental na vastidão” mostra a bonita história de um cientista japonês que viaja à Manaus apenas para conhecer as águas do rio Negro – local onde, futuramente, ele escolherá para morrer; um jornalista indiano, disfarçado de almirante, faz uma visita a um escritor de Manaus – Milton Hatoum? – a fim de publicar, na Índia, um perfil sobre autor.
Na cidade de Hatoum, os homens defendem sua honra com vingança e cabeça em pé. Nos contos “O adeus do comandante” e “A casa ilhada”, o escritor traça dois perfis completamente diferentes para dois homens traídos por suas respectivas mulheres. No primeiro, um simples barqueiro, numa lúgubre viagem de barco, assassina o próprio irmão após descobrir os casos de infidelidade envolvendo sua esposa: “Salvei minhas honras e tirei a vergonha dos meus três filhos”, explica o personagem. Já em “A casa ilhada”, um renomado biólogo retorna à Manaus para matar o homem que seduziu sua mulher e arruinou o início do seu casamento. Assim, o contista une, no mesmo nível, o intelectual ao homem simples: ambos traídos à beira do rio Amazonas.
Tal como Dalton Trevisan mitificou Curitiba e João Ubaldo Ribeiro, a ilha de Itaparica, o escritor amazonense se dedica às peripécias de sua região, com os seus costumes, tradições, gírias, pratos típicos e lendas: é o comportamento subversivo do jovem artista Mundo, do romance “Cinzas do Norte”; são as brigas constantes dos gêmeos Yaqub e Omar, em “Dois Irmãos”; é o retrato da decadência na vida de Arminto Cordovil, em “Órfãos do Eldorado”.
As delicadas histórias de Milton Hatoum, em “A cidade ilhada”, poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo. Mas o contista não abre mão de sua terra. É em Manaus - ou numa pequena cidade à beira do rio Amazonas – que suas tramas são ambientadas e desenvolvidas.
Milton Hatoum segue o conselho do autor russo Leon Tolstoi: “Cante a tua aldeia e serás imortal”.
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (27/01/10).

Na estrada do terror, com Cormac McCarthy

Nas tradicionais listinhas de fim de ano, o jornal britânico “The Times” resolveu elencar os cem melhores livros da década. Nada muito fora do comum: Phillip Roth, Ian McEwan, Salman Rushdie e J. M. Coetzee. Estranho foi contemplar, na terceira posição, o best-seller “O Código da Vinci”, de Dan Brown. Irônico é que o mesmo livro foi vencedor em outra categoria: os cinco piores livros da década.
No primeiro lugar, o “The Times” fez justiça apontando “A Estrada”, do norte-americano Cormac McCarthy. Frequentemente comparado a Herman Melville e William Faulkner, McCarthy escreveu uma dezena de romances, entre eles “Onde os velhos não têm vez” (2005), “Todos os belos cavalos” (1992) e “Meridiano sangrento” (1985) – considerado um dos melhores romances do século 20, na opinião do crítico literário Harold Bloom.
Publicado em 2006, vencedor do Prêmio Pulitzer de 2007, “A estrada” é aterrorizante. Não é possível saber em que ano, exatamente, a história se passa. Algumas pequenas marcas de tempo, como uma garrafa de Coca-Cola, indicam que a história não está situada em um passado longínquo. É uma América pós-apocalíptica, em que já não resta quase nada no mundo. Todas as casas e prédios estão abandonados, destruídos. Os supermercados foram saqueados e os poucos vivos que circulam, costumam se alimentar de seres humanos, andando em bandos à procura de carne fresca.
O livro, narrado em terceira pessoa, traz basicamente dois personagens, o pai e seu jovem filho – eles não têm nomes. Cormac McCarthy abriu mão de nomeá-los, para que a situação vivida pela dupla seja ainda mais universal. Devido ao intenso frio em que estão vivendo, resolvem seguir a estrada, rumo ao sul, a pé, em busca de uma chance de sobrevivência.
O que vão encontrar por lá? Gangues, assassinos ou pessoas que, assim como eles, são do bem? Eles não sabem. A dupla carrega um carrinho de compras e duas mochilas com alguns produtos essenciais para garantir, temporariamente, suas vidas. Nas mãos do pai, um revólver com apenas duas balas: uma possível solução para o drama da dupla.
Como a proposta do autor é narrar, em 234 páginas, os meses do percurso dos personagens, McCarthy optou por separar a narrativa em pequenos e médios blocos de texto. Assim, o narrador coordena os momentos em que o tempo avança ou permanece estagnado na história.
Em cada momento em que a dupla identifica uma casa – ou o que sobrou dela –, o clima de suspense desperta. Não é possível continuar seguindo o caminho, sem antes tentar encontrar na residência algo para comer ou algum objeto que possa servir para alguma finalidade. Se a casa ainda estará habitada ou não, é um risco que eles correm.
No primeiro encontro com outro personagem, um integrante de uma gangue canibal, a vida do garoto é posta em risco e o pai faz um disparo contra o inimigo. Resta, então, a partir daí, apenas uma bala para aliviar o sofrimento dos dois, um sofrimento que ainda não chegou no limite.
O desejo pela morte é levado ao extremo em apenas uma cena. Num dos momentos em que vasculham uma casa, pai e filho descobrem uma horripilante prisão de humanos. No mesmo instante, os responsáveis pela casa chegam e os dois fogem sem conseguir salvar os encarcerados. Enquanto permanecem escondidos, o pai pede ao filho que, se forem capturados, ele seja capaz de cometer o suicídio, utilizando a única bala que resta na arma.
“Você consegue fazer isto? Quando o momento chegar? Quando o momento chegar não vai haver tempo. O momento é agora. Amaldiçoe Deus e morra. E se não disparar? Você poderia esmagar esse crânio adorado com uma pedra? Há um ser dentro de você sobre o qual você não sabe nada? Será possível? Segure-o nos braços. Assim mesmo. A alma é rápida. Puxe-o na sua direção. Beije-o. Rápido.”
Na estrada de McCarthy, mesmo caminhando no clima de suspense, suportando um frio de congelar a espinha do leitor, os dois personagens conseguem construir uma relação de amor e amizade entre si: é Isso o que faz de “A Estrada”, uma obra-prima.
Para ler:
“A Estrada”, de Cormac McCarthy (Alfaguara, 234 págs, 36,90).
Tradução de Adriana Lisboa.
Avaliação: Excelente.

O amor e as mortes de Rubem Fonseca

Em “O Seminarista”, escritor mineiro homenageia sua atual namorada e envolve o leitor em uma trama inteligente e cheia de assassinatos
Papai Noel é o primeiro a morrer com uma bala na cabeça. Em uma cena antológica, José Rubem Fonseca inicia “O Seminarista”, seu novo romance policial, escrevendo sobre o assassinato de um sujeito fantasiado de Bom Velhinho, em plena véspera do Natal.
Em “O Seminarista”, Rubem Fonseca cria o José, um matador de aluguel conhecido como O Especialista, que recebe de um personagem chamado Despachante as ordens para realizar uma série de assassinatos. Assim, O Especialista conta, concisamente, alguns de seus “trabalhos específicos” que, além do Papai Noel, incluem um pedófilo, um assassino profissional e um necrófilo.
Depois de assaltar o pedófilo e matá-lo, no segundo assassinato do livro, a figura de José começa a ganhar contornos de um anti-heroi. O protagonista concede uma carona ao garoto que estava no apartamento do pedófilo, leva-o até sua casa, na favela, dá o dinheiro roubado do pedófilo à mãe do garoto e a ameaça: “Se você não tomar conta direito dos seus filhos eu te arrebento, entendeu? E se for viver com um gigolô que vai roubar a sua grana eu mato vocês dois”. É mais um inesquecível personagem fonsequiano.
O assassino abandona o emprego aos 40 anos de idade e revela ter a “consciência pesada”, devido aos crimes que cometeu em sua trajetória. Mas a sua rotina de aposentado muda com a presença de Kirsten, uma jovem alemã que traduz livros do português para o alemão. Na vida real, Rubem Fonseca, a exemplo de José, O Especialista, também namora uma jovem alemã que traduz livros da língua portuguesa para o alemão. Dessa forma, o escritor homenageia e imortaliza sua atual namorada em uma obra que, provavelmente, ela mesma traduzirá para a edição alemã.
Após o início do romance – no livro – de José com Kirsten, o protagonista descobre que ela é filha do Despachante e que, inicialmente, cumpria a tarefa de espioná-lo. Descobre, também, ser alvo de perseguição, devido ao desaparecimento de um CD, contendo informações sigilosas e comprometedoras que estava na casa de uma de suas vítimas.
Nesse ponto da obra, Despachante, Kirsten e José passam a investigar o destino do objeto, enquanto a morte se aproxima do trio a passos céleres. Tudo, é claro, conduzido por um enredo inteligente e misterioso.
Na intensidade do amor e da violência, o escritor insere, na fala de O Especialista, algumas citações bíblicas e excertos poéticos em latim e em outras línguas, de autores como Cícero, Horácio, Sêneca, Camões, Propércio, Petrarca, Salústio, entre outros.
A poesia e os fragmentos de pensamentos pipocavam na cabeça do matador de aluguel desde o tempo em que ele frequentou o seminário e abandonou a vida dedicada à igreja, “por ser um sujeito libidinoso”. A presença das citações é tão frequente, que até mesmo um dos personagens critica o costume de José: “Essa tua mania de falar latim enche o saco”.
O uso de citações é uma estratégia necessária de Rubem Fonseca para mergulhar o leitor na complexidade psicológica do assassino de aluguel. Afinal, a violência, na obra fonsequiana, nunca é gratuita.
Aos 84 anos, Rubem Fonseca continua a provocar seus leitores com doses cavalares de sarcasmo, inteligência, erudição e, além de tudo, uma boa história: receita que o consagrou como O Especialista do romance policial na literatura brasileira.
Título: “O Seminarista”
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Agir
Preço: R$ 36,00 (181 págs.)
Avaliação: Excelente
Publicado em O Diário do Norte do Paraná (25/11/09).

Mutarelli solta os demônios

Não espere apenas por um romance ou uma novela. “Miguel e os Demônios”, o novo livro do cartunista e escritor Lourenço Mutarelli, possui influências tão fortes dos filmes e dos quadrinhos, que a obra é, ao mesmo tempo, gibi, roteiro cinematográfico e, claro, literatura.
A linguagem concisa de Mutarelli serve para retratar a psique de seus personagens, que vivem rotinas patéticas, sufocantes e, devido ao caos diário, não conseguem refletir sobre o estado depressivo em que estão envolvidos. A escrita rápida, instantânea e automática do autor caracteriza a trajetória de seus personagens.
O protagonista Miguel, um investigador da polícia civil, permanece consternado em meio ao envolvimento amoroso com sua esposa, um relacionamento sem diálogos nem sentimentos. Sua única diversão consiste em jogar paciência no computador do trabalho.
A vida do protagonista muda quando ele flagra seu chefe, no motel com uma amante, e é pressionado a mudar de repartição. Dias depois, ao atender o chamado de uma mulher que encontrou uma múmia em sua residência, Miguel a reconhece como sendo a amante, uma prostituta com quem ele passa a manter alguns encontros.
Miguel, então, cai em desgraça. Ele fica viciado no sexo com a prostituta; seu pai sofre um derrame cerebral; e resolve separar-se da esposa, que deixa, de propósito, o gás do fogão aberto para causar sua própria morte e as mortes de sua irmã e suas duas filhas.A culpa da série de acontecimentos é o envolvimento de Miguel com a prostituta, que estaria ligada a seitas satânicas. Dominado, finalmente, pelos demônios que o atormentavam desde o início da obra, Miguel se vinga do cunhado, que fotografava suas próprias filhas, em poses sensuais, e vendia o material na internet.
O enredo, por si só, é bizarro. Descritas pelo autor, as cenas do livro ganham contornos grotescos, irônicos, repugnantes. Em certos momentos, Mutarelli descreve seus personagens por meio de closes de câmeras, indicando, na obra, o momento em que a câmera sobe ou desce. Ou seja, em Mutarelli, a literatura imita a produção cinematográfica.
É preciso ler “Miguel e os Demônios”, reconhecendo o humor peculiar do autor. Em O Cheiro do Ralo (2002), o protagonista conclui que os personagens do seriado “Friends” são seus melhores amigos. Em “A Arte de Produzir Efeito sem Causa” (2008), o personagem principal separa mentalmente as mulheres que encontra à sua frente, toda vez que sai às ruas, em três seções: as mulheres que ele “comia”, “casava” ou “mandava pra forca”. Já em “Miguel e os Demônios”, o chefe de Miguel decepa os dois dedões e o próprio sexo com uma tesoura, e a prostituta com a qual o protagonista se envolve, revela-se ao leitor, abruptamente, como sendo, na verdade, um travesti.
A literatura brasileira não é mais aquela da década de 1930, em que havia uma união temática entre os autores, como Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos. Os sujeitos pós-modernos, pós-industriais, são projetados na obra de Mutarelli, em situações anormais, viciantes, em que não há vida além da rotina de trabalho. A repetição de ações e a loucura unem o cômico ao macabro em Miguel e os Demônios, um livro mordazmente engraçado, tradutor do Brasil contemporâneo.
Título: Miguel e os Demônios
Autor: Lourenço Mutarelli
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 34,00 (115 págs.)
Avaliação: Ótimo
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (25/10/09).

Um conselho de Roth

“Os sentimentos podem ser o maior problema na vida. Os sentimentos podem nos pregar peças terríveis”, alerta Philip Roth. Nestas duas frases, o maior escritor vivo da língua inglesa expõe o cerne de seu novo romance, “Indignação”.
Em seu vigésimo nono livro, Roth retoma a influência da sociedade judaica, a tensão sexual de seus personagens e o excesso de proteção familiar que os envolvem. A novidade, desta vez, está no rompimento com os narradores velhos de seus últimos livros, “O Fantasma Sai de Cena” (2008) e “Homem Comum” (2007).
Narrado em primeira pessoa pelo jovem Marcus Messner, um estudante de direito que está sob efeito de morfina, “Indignação” é um romance primoroso, permeado por diálogos cortantes e conduzido por minuciosos detalhes que constituem, a cada página, o emaranhado psicológico dos personagens de Roth.
No momento em que o protagonista inicia sua vida acadêmica, seu pai passa a temer sua morte de uma forma paranoica, doentia, ainda mais acentuada do que em “O Complexo de Portnoy” (1969), obra que assegurou o lugar de Roth na literatura contemporânea.
Seja com relação aos seus familiares, aos colegas de quarto, à religião e até mesmo na relação sexual com uma colega, o narrador sente-se constantemente indignado, mas sempre escolhe evitar os problemas. A calma de Marcus Messner, no entanto, tem limites. E é discutindo com o diretor de alunos da universidade que o protagonista dá voz aos seus sentimentos e ofende verbalmente o diretor, o que resulta na sua expulsão.
Convocado para ingressar o exército estadunidense na guerra da Coreia, Messner morre atrofiado pelas baionetas inimigas, em um ambiente tão sangrento quanto ao açougue em que trabalhou durante a adolescência.
Por meio de personagens perturbados, que vivem as diferenças existentes entre a cultura judaica e a cultura norte-americana, Philip Roth, aos 76 anos, produz outro retrato provocante dos sentimentos humanos. E revela ao leitor que, às vezes, o melhor é cumprir as obrigações da mesma forma passiva e tolerante tal como Messner, trabalhando no açougue de seu pai, aceitava a tarefa de eviscerar galinhas: “Nauseabunda e repugnante, mas tinha de ser feita.”
Que a vida fosse boa e justa para Messner e para todos nós, mas ela é repleta de injustiças, desaforos, indignação. Evitar os confrontos e aceitar passivamente algumas ordens pode ser a melhor estratégia, de acordo com o conselho de Philip Roth.
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (04/10/09).

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O ano ruim de J. M. Coetzee

O último romance do Nobel sul-africano J. M. Coetzee poderia ter sido transformado em um livro de ensaios ou até mesmo em um livro de crônicas. Mas o ganhador de dois Booker Prize não abriu mão de suas deliciosas personagens aparentemente vazias, nem do gênero que domina.

“Diário de um ano ruim” é na verdade um romance composto por três livros. Cada página está dividida por linhas pontilhadas ora em duas, ora em três seções. Na primeira seção, Coetzee organizou os filosóficos ensaios articulados pelo seu alter ego, o veterano escritor Señor C, que, a pedido de um editor alemão, está produzindo um livro sobre suas opiniões, abarcando o período de 12 de setembro de 2005 a 31 de maio de 2006.

Nas outras duas seções de cada página, como se fossem notas de rodapé, Coetzee delimita o envolvimento de três personagens, que até então eram cordiais vizinhos no edifício Torres Sydenham: uma sensual secretária filipina, Anya, contratada pelo escritor para digitar suas idéias em seu apartamento; seu companheiro ciumento – o vilão do livro –, Alan; e o renomado literato Señor C. O enredo da obra é simples. Alan, o ciumento, imagina que sua mulher esteja seduzindo o escritor – o que é verdade. Em conversa com ela, Alan sugere um plano para roubar o dinheiro de Señor C. A proposta do vilão, de roubar um velho e solitário escritor não seduz a secretária, que passa a reavaliar o homem com quem está vivendo.

O envolvimento entre a tríade de personagens é todo narrado em primeira pessoa pelas próprias personagens, a partir de um recurso muito utilizado em produções cinematográficas, em que os núcleos da história se desenvolvem independentes. Na literatura, a apropriação de Coetzee exige que o leitor defina uma estratégia de leitura.

Caso resolva seguir a ordem das seções, lendo uma página inteira por vez, o leitor desavisado pode se aborrecer facilmente. Afinal, a narrativa de cada seção atravessa outras páginas e o sujeito, por muitas vezes, é obrigado a retornar à página anterior para retomar o raciocínio do romance ou dos ensaios. Uma segunda opção é acompanhar apenas uma das seções e ignorar as demais. Embora as duas estratégias revelem a história de uma mesma forma, é mais prazeroso seguir as veredas do desconforto, acompanhando as três seções em uma mesma página.

Entre as posições de Señor C, que assim como J. M. Coetzee também é um literato sul-africano radicado na Austrália, não faltam reflexões sobre a política dos Estados Unidos, da Austrália e da África. Em seus ensaios políticos, que chegam a lembrar os ensaios do lingüista Noam Chomsky, Señor C critica a pseudo liberdade dentro do regime democrático, avança sobre figuras políticas como Tony Blair e Richard Cheney e disserta sobre a função do Estado.

Em alguns momentos, como no capítulo dedicado às atrocidades cometidas na base militar de Guantánamo, Coetzee distancia-se de Chomsky e se aproxima da ironia das crônicas machadianas do final do século XIX, quando Machado de Assis escrevia sob o pseudônimo de Lélio.

Na maioria de suas obras, o Nobel sul-africano é sempre cuidadoso com a forma com que produz suas críticas. Em sua obra-prima, Desonra (1999), Coetzee exibe a guerra de territórios, a violência e os problemas sociais na África pós-apartheid, com críticas artisticamente romanceadas. Já em “Diário de um ano ruim”, a crítica está cercada no espaço do próprio livro, numa voz explicitamente engajada de Coetzee.

“Diário de um ano ruim” não é apenas uma compilação de ensaios sobre política, de um Nobel intelectual. Escarafunchando as atitudes de figuras públicas e de cidadãos comuns, J. M. Coetzee transforma a escória dos seres humanos, em uma profunda obra de arte.

Autor: J. M. Coetzee
Tradução: José Rubens Siqueira
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 39,00 (241 págs)
Avaliação: Bom

Publicada em O Diário do Norte do Paraná (17/12/08).

Oasis acerta a mão em 'Dig out your soul'

Mais de uma década de sexo, drogas e rock and roll garantiram aos líderes do Oasis, os irmãos Liam e Noel Gallagher, a fama de vaidosos e desprezíveis. Brigas constantes, declarações polêmicas, shows interrompidos e acusações de serem plagiadores dos Beatles marcaram a trajetória da banda. Com o oitavo disco de estúdio, “Dig out your soul”, o Oasis volta maduro, menos polêmico e se aventura até pelas veredas da psicodelia.

As duas faixas que abrem o álbum, “Bag it up” e “The turning”, interpretadas por Liam Gallagher, revelam logo no início que o Oasis não perdeu a fórmula para melodias e refrões arrebatadores, que remetem ao clima do primeiro álbum, o aclamado “Definitely maybe”.

Os riffs de guitarras e a forte pegada do baterista Zack Starkey marcam a excelente “The shock of lightnin”. Zack Starkey, filho de Ringo Satrr, já havia participado da gravação “Don’t believe the truth” (2005). Em “Dig out your soul”, ele retorna e acrescenta criatividade e potência em faixas como “Ain’t got nothing”, superando o limitado ex-baterista, Alan White.

Já a psicodélica “To be where there’s life”, conduzida pelo baixo de Andy Bell, é reflexo do domínio do Oasis com relação aos limites do experimentalismo musical. Sem exageros, a banda mostra sua comportada e efêmera psicodelia.

A balada do disco – todo álbum do Oasis tem pelo menos uma – fica por conta de “I’m outta time”, composta por Liam Gallagher. A canção homenageia John Lennon, assassinado em 8 de dezembro de 1980, e reproduz o áudio de uma entrevista do ex-beatle concedida no ano de sua morte. Com um belo e pegajoso refrão, “I’m outta time” é uma das baladas mais interessantes de toda a carreira do Oasis.

Noel Gallagher aparece discreto em apenas três faixas, tempo suficiente para se destacar em “Falling Down” e “Waiting for the rapture”. Em “Dig out your soul”, Noel está cantando mais à vontade, explora bem os falsetes e privilegia as canções rápidas.
Shows no Brasil

O Oasis possui apresentações marcadas até março de 2009. Mesmo com agenda lotada, o Oasis deve voltar ao Brasil – caso os boatos se confirmem – ainda no início do ano que vem. A esperança dos fãs é que o grupo inclua no roteiro o Rio de Janeiro e outras capitais, pois em sua última passagem pelo território brasileiro, em 2006, o Oasis se apresentou em São Paulo, para apenas 14 mil pessoas.

Nos shows que vem realizando com a nova turnê, os ingleses têm privilegiado as músicas deste novo e excelente disco. Os vídeos disponibilizados no youtube, pela MTV americana e pelos próprios fãs, mostram o guitarrista Noel Gallagher com a voz impecável. O vocalista Liam, por sua vez, está cada vez mais rouco e desafinado. A versão ao vivo de “I’m outta time” é péssima. As novidades do repertório ficam por conta de “Slide Away” (1994), canção do primeiro disco, resgatada de forma inesperada, e uma emocionante versão acústica de “Don’t look back in anger”. Os sucessos “Cigarettes and alcohol”, “Wonderwall” e “Morning Glory” permanecem no set list do Oasis.

Publicada em O Diário do Norte do Paraná (02/12/08).

O universo sexual de João Gilberto Noll

Recebido com certa apatia pela crítica especializada, o novo livro do escritor gaúcho João Gilberto Noll, “Acenos e afagos”, repete a fórmula adotada pelo autor em “Berkeley em Bellagio” (2002), todo escrito em um único e vertiginoso parágrafo, sem separação entre os capítulos.

“Lutávamos no chão frio do corredor”, a primeira frase de “Acenos e afagos”, inicia a descrição da primeira aventura sexual do narrador – que não possui nome –, ainda quando jovem, com seu colega de colégio: “a luxúria adulta estava então lançada”.

No desenvolvimento da obra, o leitor encontra uma rica prosa poética, a partir de metáforas, sonoridades e imagens, descritas concomitantemente de uma forma marginal e erudita. Se Noll expõe os símbolos fálicos e utiliza uma linguagem antiacadêmica, por outro lado, exibe um vocabulário profusamente erudito.

O narrador de “Acenos e afagos” é um prisioneiro infeliz. No início, ele é casado, administra uma fazenda, tem um filho e não está satisfeito sexualmente. Moralmente aprisionado, o narrador passa a manter relações sexuais com desconhecidos. A sujeira é seu afrodisíaco.

O enredo rocambolesco da obra envolve um narrador homossexual constantemente excitado, que obedece a seus instintos e sente-se atraído, inclusive, por uma velha de oitenta anos e por uma cabra; um misterioso submarino alemão, onde os presentes protagonizam suas orgias e gozam o turbilhão da libido; e até a catalepsia do próprio narrador, que volta à vida graças ao seu amigo engenheiro, suspeito de envolvimento com o narcotráfico.

Mesmo quando abandona a família, para viver com o amigo engenheiro – o mesmo personagem envolvido na luta corporal do início do livro –, o narrador continua um prisioneiro. Ele aceita viver a rotina de uma mulher submissa, passiva, alienada, incumbida apenas das responsabilidades relacionadas à limpeza da casa, às refeições e ao sexo diário, no interior do Mato Grosso.

A metamorfose sexual e psicológica do narrador, que se transforma ora em mulher, ora em homem, em seu monólogo interior, é a passagem mais interessante do romance.

Entre os acenos e afagos que desencadeiam os relacionamentos amorosos, João Gilberto Noll impressiona com a atordoada introspecção de seu narrador. O universo sexual de Noll é o mesmo retratado em outros livros: escancarado, infame, amoral. No entanto, em “Acenos e afagos”, uma obra que já é forte candidata ao melhor romance de 2008, Noll retorna ainda mais poético e pornográfico.

Editora: Record
Autor: João Gilberto Noll
Preço: R$ 32,90 (206 págs.)
Avaliação: Excelente

O Gênio Elomar

Lírico ignorado da grande mídia, Elomar Figueira Mello lança livro independente e canta seu universo singular

Foi num pequeno auditório do Espaço Cultural É Realizações, em São Paulo, no último dia 10, que cerca de 80 “cavaleiros” de Elomar Figueira Mello aguardaram, ansiosos, uma apresentação do recluso e mítico músico baiano.

O motivo do concerto foi o lançamento de seu primeiro livro, “Sertanílias”, publicado de forma independente. Aos 71 anos, Elomar raramente concede entrevistas e não permite ser fotografado - nem mesmo nas noites de autógrafos. O excêntrico compositor reside em um sítio, no interior da Bahia, onde cria cabras, compõem canções em dialeto “sertanezo” e comercializa seus álbuns.

Completamente ignorado pelas mídias massificadoras do país e desconhecido do grande público, Elomar engendrou um universo paralelo, em sua obra, estagnado na Idade Média, com direito a reis, rainhas, menestreis, donzelas e cavaleiros. Do outro lado do universo elomariano está o sertão catingueiro, composto pela seca, fome, religiosidade, esperanças e variações linguísticas.
Vestindo preto, das botas ao chapéu, Elomar Figueira Mello sobe ao palco sozinho e logo pede desculpa aos admiradores. “Com a voz assim, não consigo alcançar algumas notas. Mas fazer o quê? Vou me matar?”, brinca o cantor. Após a longa conversa, em que falou sobre a série de shows no território lusitano e sobre o resfriado, que o impediria de cantar algumas canções, Elomar passa a murmurar heroicamente, entre uma tosse e outra, os versos iniciais de sua primeira canção gravada, “O violêro” (1968), sobre um músico errante, ambientada num cenário medieval e sertanejo. Um artista único.

Entre as canções do concerto, que dialogam com a música erudita e com a música popular, o compositor faz criticas ácidas ao neoliberalismo econômico, reflete sobre o Deus ocidental e analisa o povo brasileiro. Em clima intimista, executa “Faviela”, destacando, com muito esforço, os belos versos do refrão, enquanto os momentos de tensão e harmonia da letra transfiguram seu rosto.

Poucas vezes o homem sertanejo foi tão homenageado diante do caos urbano e da modernidade de São Paulo como com a obra de Elomar. Antes de encerrar a apresentação, Elomar recorda as injustas críticas dos jornalistas Tárik de Souza e “um tal de Mauricio Kubrusly”, que o classificaram, ainda no início da carreira, como “mais um que desceu do Nordeste em busca do sol”. Segundo o compositor, apenas Tárik se retratou da crítica. “E até hoje eu ainda não encontrei o sol”, ironiza.

A entrevista

“Eu gostaria que as minhas canções fossem ouvidas”, disse o compositor, numa rara entrevista, concedida com exclusividade a O Diário após a apresentação. A única exigência é que não seja fotografado. A decisão do compositor é surpreendente, inclusive, para seus amigos, presentes no concerto.

Elomar, você é um músico, um literato, um intelectual. Daqui a 80 anos, como você vai querer ser lembrado?

Daqui a 80 anos, meu ‘fio’, continuo sem querer tirar retrato (risos). Eu até que me sentiria muito bem, se, para onde eu vou, fosse dado saber das coisas que se passam aqui, dentro desse ‘bugaiau’, chamado planeta Terra. Eu gostaria de saber que eu fui completamente esquecido, jogado no ostracismo. Mas jogado dentro de uma ostra e jogado dentro do fundo, do mais profundo mar. Isso sim, o ostracismo. Eu gostaria que as minhas canções fossem ouvidas, admiradas, amadas e levadas em consideração. Canções como “Arrumação”, “O pidido”, “Auto da catingueira”, que falam sobre os retirantes, da peregrinação do homem na terra, dos vaqueiros, do homem do campo, sobretudo, que sempre foi alijado pela sociedade urbana, pelos urbanoides. Não precisam saber o nome do autor.

E, se um dia, suas músicas fossem massificadas, executadas exaustivamente na rádio, como você se sentiria?

Dentro do caixão, eu me viraria todo! Se fizessem a exumação do meu corpo, me encontrariam emborcado lá dentro, todo retorcido!

Por que o número sete é tão relevante para você?

Não só o número sete, mas o três, o oito, o um, o quatorze e o quarenta são números que estão constantemente dentro da arquitetura e dentro da História. Moisés, aos quarenta anos matou um nobre egípcio, foi para o deserto, encontrou Jetro, ficou quarenta anos pastorando ovelhas, voltou, e por mais quarenta anos errou pelo deserto, com o povo de Deus, e morreu com cento e vinte. O pior dos números é o seis, porque se refere ao homem, que é a pior parte que tem nessa numerologia sagrada. Dezessete é uma idade muito bonita, muito marcada em minha vida. Eu canto “está fechando sete tempos”, “já cantei nos sete reinos”. Eu canto porque o sete é bonito, porque é belo. O sete é um número sagrado, o número da perfeição. Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo. O sétimo é fundamental.
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (03/11/08).

A volta do Vampiro de Curitiba

Novo livro de Dalton Trevisan traz assassinos, estupradores, policiais corruptos e fetichistas sexuais em retratos cruéis e enxutos

Em uma época em que escritores vivem rotina de celebridade, com direito a mirabolantes noites de autógrafos, entrevistas em programas televisivos e badaladas conferências literárias, Dalton Trevisan é, antes de tudo, um peixe fora d’água.

O maior contista brasileiro não concede entrevistas há cerca de três décadas, possui apenas duas ou três fotografias imortalizadas em livros didáticos, não comparece a eventos nos quais é homenageado e caminha todos os dias pelas ruas de Curitiba. O cobiçado anonimato garante liberdade para o autor entrar em qualquer lugar, observar desconhecidos e pequenos detalhes de situações alheias, sem ser importunado por seus leitores.

Lançado no final de julho, “O maníaco do olho verde” reúne vinte e seis retratos estarrecedores, cruéis e realistas do submundo, composto por policiais corruptos, traficantes, assassinos, estupradores, prostitutas, alcoolatras e fetichistas sexuais. A prosa poética de Dalton Trevisan, extremamente piedosa com seus protagonistas e de forte crítica social, aproxima o leitor ao mundo da marginalidade, como se as personagens relatassem suas histórias e perspectivas em conversas triviais. Em “O maníaco de olho verde”, a sociedade escuta a voz ativa direto das entranhas da marginalidade.

Aos 83 anos, o “vampiro de Curitiba” recompõe criativamente sobre seus temas prediletos, como velhice e solidão, no excelente “Atira, velho!” e em “Mundo, não aborreça”, que traz o dramático e macabro leito de morte de Ceci.

Para muitas pessoas, Dalton Trevisan é difícil de ser “engolido”, devido a suas estórias recheadas de perversões sexuais. E sobre sexo, Dalton é mesmo insuperável, pois abusa, com maestria, da fórmula dos curtos e perturbadores enredos, como “O Padrasto”, narrado por uma jovem que é molestada pelo próprio padrasto. Na linha do trem, mais fetiches sexuais. O “maníaco” realiza seus ataques em três estórias inesquecíveis: “O assobio do maníaco”, “O maníaco ataca” e “O maníaco do olho verde”.

Poucos escritores dominam enredos tão enxugados e, ao mesmo tempo, tão complexos. Os contos curtos exigem leitores cuidadosos e críticos, que são conduzidos pelo ritmo descompassado da narrativa. Na concisão extrema, minuciosas psiques de anti-heróis são compostas em uma única frase. Portanto, apenas um suspiro ignorado, estrategicamente camuflado entre parágrafos ou frases, pode resultar na compreensão parcial do rico emaranhado psicológico construído por Dalton Trevisan, em sua nova obra-prima.

Publicada em O Diário do Norte do Paraná (14/09/08).

A antiarte de Duchamp

Maior exposição sobre Marcel Duchamp fica até setembro no MAM de São Paulo. Obras perturbadoras são mostras do gênio do artista que revolucionou a arte

Um urinol virado ao contrário, uma roda de bicicleta montada sobre um banco e até mesmo um simples pente provocam: o que é preciso para algo ser considerado obra de arte?
Inaugurada em julho, a retrospectiva “Uma obra que não é uma obra ‘de arte’”, a maior já realizada sobre o gênio Marcel Duchamp (1887-1968) na América Latina, é simplesmente desconcertante.

Praticamente todas as 120 obras expostas são réplicas produzidas pelo próprio artista franco-americano, que teve parte da produção original confundida com lixo e jogada fora por sua irmã, enquanto limpava o atelier.

“O grande vidro”, “Sendo Dados”, “Caixa-Valise” e “Por que não espirrar, Rose Sélavy?”, produções consagradas de Duchamp, garantem ao público um contato íntimo com o mestre da antiarte. Diversos manuscritos, fotografias e filmes raros sobre o artista também compõem a mostra.

A partir do diálogo de Marcel Duchamp estabelecido com o Futurismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo e até com a sua incondicional paixão pelo jogo de xadrez, é possível acompanhar, no MAM, as propostas da excitante revolução do universo artístico.

Os seus ready-mades (“pronto para uso”) são as provas de que todo objeto cotidiano e trivial, qualquer objeto resultado da produção de massa, quando assinado pelo autor e deslocado para dentro de um museu, transforma-se em obra de arte. Duchamp coordenou uma revolução marcada por seu humor ácido e sardônico, que não poupou nem mesmo a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, rabiscada com divertidos bigode e cavanhaque.

“Roda de bicicleta” (1913), o seu primeiro ready-made, abre a retrospectiva. O público, reunido em redor de uma roda inerte sobre um banco, é tomado por uma desconfortável sensação coletiva. O efeito é a catarse, ao enfrentar obras tão inusitadas e repletas de puro anarquismo estético. Mas, sobretudo, repletas de genialidade.

Poucos metros à frente, pendurados no teto, “Previsão do braço partido” (1915) e “Porta-garrafas” (1914/1964), uma pá para neve e um suporte para garrafas, respectivamente, causam estranheza e arrancam sorrisos do público embasbacado.

A sensação desconfortável reaparece, inclusive, durante a leitura dos textos objetivos e bem escritos que conduzem os espectadores. Sorrisos consternados estampam faces quase incrédulas, observando o tampão de pia em bronze polido, na obra “Boca-ralo” (1964/1967), e do mini-museu portátil com obras do próprio Duchamp em “Boîte-em-Valise” ou “Caixa-Valise” (1935-41).

Em “L.H.O.O.Q.”, uma sigla que, em francês, é semelhante a uma expressão pornográfica, Duchamp rabisca bigode e cavanhaque sobre a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci (1452-1519). A obra é um dos marcos do Dadaísmo, movimento artístico que rechaçava os valores instituídos pela arte e sociedade.

Frente a frente com sua obra mais popular, a “Fonte” (1917/1964), nenhum ruído, nenhum comentário. O silêncio fúnebre predomina, como se os espectadores estivéssemos próximos de um túmulo. O mictório invertido é fotografado. Pessoas posam ao seu lado e analisam detalhes nos diversos ângulos. Gênio? Louco? Bizarro? Superestimado? Dadá? Graças a Duchamp, hoje, um intelectualizado vômito dentro de um museu é arte. Uma pessoa gritando dentro de um museu é arte. A própria ausência de obras de arte, em um museu, é arte. Você, leitor, acompanhando esse jornal: se você estivesse dentro de um museu, também seria uma obra de arte. Agradeça a Marcel Duchamp, o algoz dos cânones tradicionais. O coveiro zombador da arte clássica.

Marcel Duchamp: Uma obra que não é uma obra “de arte” permanece no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) até o dia 21 de Setembro. Endereço: Parque do Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, portão 3. De terça a domingos e feriados, das 10h às 18h. Ingresso: R$ 5,50. Crianças até 10 anos e adultos com mais de 65 anos não pagam. Telefone: (0/xx/11) 5085-1300.
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (19/08/08).