Milton Hatoum segue o conselho do autor russo Leon Tolstoi: “Cante a tua aldeia e serás imortal”.
sábado, 13 de fevereiro de 2010
A Manaus de Hatoum
Milton Hatoum segue o conselho do autor russo Leon Tolstoi: “Cante a tua aldeia e serás imortal”.
Na estrada do terror, com Cormac McCarthy
Em cada momento em que a dupla identifica uma casa – ou o que sobrou dela –, o clima de suspense desperta. Não é possível continuar seguindo o caminho, sem antes tentar encontrar na residência algo para comer ou algum objeto que possa servir para alguma finalidade. Se a casa ainda estará habitada ou não, é um risco que eles correm.
O amor e as mortes de Rubem Fonseca
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Agir
Preço: R$ 36,00 (181 págs.)
Avaliação: Excelente
Mutarelli solta os demônios
A linguagem concisa de Mutarelli serve para retratar a psique de seus personagens, que vivem rotinas patéticas, sufocantes e, devido ao caos diário, não conseguem refletir sobre o estado depressivo em que estão envolvidos. A escrita rápida, instantânea e automática do autor caracteriza a trajetória de seus personagens.
O protagonista Miguel, um investigador da polícia civil, permanece consternado em meio ao envolvimento amoroso com sua esposa, um relacionamento sem diálogos nem sentimentos. Sua única diversão consiste em jogar paciência no computador do trabalho.
A vida do protagonista muda quando ele flagra seu chefe, no motel com uma amante, e é pressionado a mudar de repartição. Dias depois, ao atender o chamado de uma mulher que encontrou uma múmia em sua residência, Miguel a reconhece como sendo a amante, uma prostituta com quem ele passa a manter alguns encontros.
Miguel, então, cai em desgraça. Ele fica viciado no sexo com a prostituta; seu pai sofre um derrame cerebral; e resolve separar-se da esposa, que deixa, de propósito, o gás do fogão aberto para causar sua própria morte e as mortes de sua irmã e suas duas filhas.A culpa da série de acontecimentos é o envolvimento de Miguel com a prostituta, que estaria ligada a seitas satânicas. Dominado, finalmente, pelos demônios que o atormentavam desde o início da obra, Miguel se vinga do cunhado, que fotografava suas próprias filhas, em poses sensuais, e vendia o material na internet.
O enredo, por si só, é bizarro. Descritas pelo autor, as cenas do livro ganham contornos grotescos, irônicos, repugnantes. Em certos momentos, Mutarelli descreve seus personagens por meio de closes de câmeras, indicando, na obra, o momento em que a câmera sobe ou desce. Ou seja, em Mutarelli, a literatura imita a produção cinematográfica.
É preciso ler “Miguel e os Demônios”, reconhecendo o humor peculiar do autor. Em O Cheiro do Ralo (2002), o protagonista conclui que os personagens do seriado “Friends” são seus melhores amigos. Em “A Arte de Produzir Efeito sem Causa” (2008), o personagem principal separa mentalmente as mulheres que encontra à sua frente, toda vez que sai às ruas, em três seções: as mulheres que ele “comia”, “casava” ou “mandava pra forca”. Já em “Miguel e os Demônios”, o chefe de Miguel decepa os dois dedões e o próprio sexo com uma tesoura, e a prostituta com a qual o protagonista se envolve, revela-se ao leitor, abruptamente, como sendo, na verdade, um travesti.
A literatura brasileira não é mais aquela da década de 1930, em que havia uma união temática entre os autores, como Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos. Os sujeitos pós-modernos, pós-industriais, são projetados na obra de Mutarelli, em situações anormais, viciantes, em que não há vida além da rotina de trabalho. A repetição de ações e a loucura unem o cômico ao macabro em Miguel e os Demônios, um livro mordazmente engraçado, tradutor do Brasil contemporâneo.
Título: Miguel e os Demônios
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (25/10/09).
Um conselho de Roth
Em seu vigésimo nono livro, Roth retoma a influência da sociedade judaica, a tensão sexual de seus personagens e o excesso de proteção familiar que os envolvem. A novidade, desta vez, está no rompimento com os narradores velhos de seus últimos livros, “O Fantasma Sai de Cena” (2008) e “Homem Comum” (2007).
Narrado em primeira pessoa pelo jovem Marcus Messner, um estudante de direito que está sob efeito de morfina, “Indignação” é um romance primoroso, permeado por diálogos cortantes e conduzido por minuciosos detalhes que constituem, a cada página, o emaranhado psicológico dos personagens de Roth.
No momento em que o protagonista inicia sua vida acadêmica, seu pai passa a temer sua morte de uma forma paranoica, doentia, ainda mais acentuada do que em “O Complexo de Portnoy” (1969), obra que assegurou o lugar de Roth na literatura contemporânea.
Seja com relação aos seus familiares, aos colegas de quarto, à religião e até mesmo na relação sexual com uma colega, o narrador sente-se constantemente indignado, mas sempre escolhe evitar os problemas. A calma de Marcus Messner, no entanto, tem limites. E é discutindo com o diretor de alunos da universidade que o protagonista dá voz aos seus sentimentos e ofende verbalmente o diretor, o que resulta na sua expulsão.
Convocado para ingressar o exército estadunidense na guerra da Coreia, Messner morre atrofiado pelas baionetas inimigas, em um ambiente tão sangrento quanto ao açougue em que trabalhou durante a adolescência.
Por meio de personagens perturbados, que vivem as diferenças existentes entre a cultura judaica e a cultura norte-americana, Philip Roth, aos 76 anos, produz outro retrato provocante dos sentimentos humanos. E revela ao leitor que, às vezes, o melhor é cumprir as obrigações da mesma forma passiva e tolerante tal como Messner, trabalhando no açougue de seu pai, aceitava a tarefa de eviscerar galinhas: “Nauseabunda e repugnante, mas tinha de ser feita.”
Que a vida fosse boa e justa para Messner e para todos nós, mas ela é repleta de injustiças, desaforos, indignação. Evitar os confrontos e aceitar passivamente algumas ordens pode ser a melhor estratégia, de acordo com o conselho de Philip Roth.
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (04/10/09).
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
O ano ruim de J. M. Coetzee
O último romance do Nobel sul-africano J. M. Coetzee poderia ter sido transformado em um livro de ensaios ou até mesmo em um livro de crônicas. Mas o ganhador de dois Booker Prize não abriu mão de suas deliciosas personagens aparentemente vazias, nem do gênero que domina.
“Diário de um ano ruim” é na verdade um romance composto por três livros. Cada página está dividida por linhas pontilhadas ora em duas, ora em três seções. Na primeira seção, Coetzee organizou os filosóficos ensaios articulados pelo seu alter ego, o veterano escritor Señor C, que, a pedido de um editor alemão, está produzindo um livro sobre suas opiniões, abarcando o período de 12 de setembro de 2005 a 31 de maio de 2006.
Nas outras duas seções de cada página, como se fossem notas de rodapé, Coetzee delimita o envolvimento de três personagens, que até então eram cordiais vizinhos no edifício Torres Sydenham: uma sensual secretária filipina, Anya, contratada pelo escritor para digitar suas idéias em seu apartamento; seu companheiro ciumento – o vilão do livro –, Alan; e o renomado literato Señor C. O enredo da obra é simples. Alan, o ciumento, imagina que sua mulher esteja seduzindo o escritor – o que é verdade. Em conversa com ela, Alan sugere um plano para roubar o dinheiro de Señor C. A proposta do vilão, de roubar um velho e solitário escritor não seduz a secretária, que passa a reavaliar o homem com quem está vivendo.
O envolvimento entre a tríade de personagens é todo narrado em primeira pessoa pelas próprias personagens, a partir de um recurso muito utilizado em produções cinematográficas, em que os núcleos da história se desenvolvem independentes. Na literatura, a apropriação de Coetzee exige que o leitor defina uma estratégia de leitura.
Caso resolva seguir a ordem das seções, lendo uma página inteira por vez, o leitor desavisado pode se aborrecer facilmente. Afinal, a narrativa de cada seção atravessa outras páginas e o sujeito, por muitas vezes, é obrigado a retornar à página anterior para retomar o raciocínio do romance ou dos ensaios. Uma segunda opção é acompanhar apenas uma das seções e ignorar as demais. Embora as duas estratégias revelem a história de uma mesma forma, é mais prazeroso seguir as veredas do desconforto, acompanhando as três seções em uma mesma página.
Entre as posições de Señor C, que assim como J. M. Coetzee também é um literato sul-africano radicado na Austrália, não faltam reflexões sobre a política dos Estados Unidos, da Austrália e da África. Em seus ensaios políticos, que chegam a lembrar os ensaios do lingüista Noam Chomsky, Señor C critica a pseudo liberdade dentro do regime democrático, avança sobre figuras políticas como Tony Blair e Richard Cheney e disserta sobre a função do Estado.
Em alguns momentos, como no capítulo dedicado às atrocidades cometidas na base militar de Guantánamo, Coetzee distancia-se de Chomsky e se aproxima da ironia das crônicas machadianas do final do século XIX, quando Machado de Assis escrevia sob o pseudônimo de Lélio.
Na maioria de suas obras, o Nobel sul-africano é sempre cuidadoso com a forma com que produz suas críticas. Em sua obra-prima, Desonra (1999), Coetzee exibe a guerra de territórios, a violência e os problemas sociais na África pós-apartheid, com críticas artisticamente romanceadas. Já em “Diário de um ano ruim”, a crítica está cercada no espaço do próprio livro, numa voz explicitamente engajada de Coetzee.
“Diário de um ano ruim” não é apenas uma compilação de ensaios sobre política, de um Nobel intelectual. Escarafunchando as atitudes de figuras públicas e de cidadãos comuns, J. M. Coetzee transforma a escória dos seres humanos, em uma profunda obra de arte.
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: José Rubens Siqueira
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 39,00 (241 págs)
Avaliação: Bom
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (17/12/08).
Oasis acerta a mão em 'Dig out your soul'
As duas faixas que abrem o álbum, “Bag it up” e “The turning”, interpretadas por Liam Gallagher, revelam logo no início que o Oasis não perdeu a fórmula para melodias e refrões arrebatadores, que remetem ao clima do primeiro álbum, o aclamado “Definitely maybe”.
Os riffs de guitarras e a forte pegada do baterista Zack Starkey marcam a excelente “The shock of lightnin”. Zack Starkey, filho de Ringo Satrr, já havia participado da gravação “Don’t believe the truth” (2005). Em “Dig out your soul”, ele retorna e acrescenta criatividade e potência em faixas como “Ain’t got nothing”, superando o limitado ex-baterista, Alan White.
Já a psicodélica “To be where there’s life”, conduzida pelo baixo de Andy Bell, é reflexo do domínio do Oasis com relação aos limites do experimentalismo musical. Sem exageros, a banda mostra sua comportada e efêmera psicodelia.
A balada do disco – todo álbum do Oasis tem pelo menos uma – fica por conta de “I’m outta time”, composta por Liam Gallagher. A canção homenageia John Lennon, assassinado em 8 de dezembro de 1980, e reproduz o áudio de uma entrevista do ex-beatle concedida no ano de sua morte. Com um belo e pegajoso refrão, “I’m outta time” é uma das baladas mais interessantes de toda a carreira do Oasis.
Noel Gallagher aparece discreto em apenas três faixas, tempo suficiente para se destacar em “Falling Down” e “Waiting for the rapture”. Em “Dig out your soul”, Noel está cantando mais à vontade, explora bem os falsetes e privilegia as canções rápidas.
O Oasis possui apresentações marcadas até março de 2009. Mesmo com agenda lotada, o Oasis deve voltar ao Brasil – caso os boatos se confirmem – ainda no início do ano que vem. A esperança dos fãs é que o grupo inclua no roteiro o Rio de Janeiro e outras capitais, pois em sua última passagem pelo território brasileiro, em 2006, o Oasis se apresentou em São Paulo, para apenas 14 mil pessoas.
Nos shows que vem realizando com a nova turnê, os ingleses têm privilegiado as músicas deste novo e excelente disco. Os vídeos disponibilizados no youtube, pela MTV americana e pelos próprios fãs, mostram o guitarrista Noel Gallagher com a voz impecável. O vocalista Liam, por sua vez, está cada vez mais rouco e desafinado. A versão ao vivo de “I’m outta time” é péssima. As novidades do repertório ficam por conta de “Slide Away” (1994), canção do primeiro disco, resgatada de forma inesperada, e uma emocionante versão acústica de “Don’t look back in anger”. Os sucessos “Cigarettes and alcohol”, “Wonderwall” e “Morning Glory” permanecem no set list do Oasis.
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (02/12/08).
O universo sexual de João Gilberto Noll
Recebido com certa apatia pela crítica especializada, o novo livro do escritor gaúcho João Gilberto Noll, “Acenos e afagos”, repete a fórmula adotada pelo autor em “Berkeley em Bellagio” (2002), todo escrito em um único e vertiginoso parágrafo, sem separação entre os capítulos.
“Lutávamos no chão frio do corredor”, a primeira frase de “Acenos e afagos”, inicia a descrição da primeira aventura sexual do narrador – que não possui nome –, ainda quando jovem, com seu colega de colégio: “a luxúria adulta estava então lançada”.
No desenvolvimento da obra, o leitor encontra uma rica prosa poética, a partir de metáforas, sonoridades e imagens, descritas concomitantemente de uma forma marginal e erudita. Se Noll expõe os símbolos fálicos e utiliza uma linguagem antiacadêmica, por outro lado, exibe um vocabulário profusamente erudito.
O narrador de “Acenos e afagos” é um prisioneiro infeliz. No início, ele é casado, administra uma fazenda, tem um filho e não está satisfeito sexualmente. Moralmente aprisionado, o narrador passa a manter relações sexuais com desconhecidos. A sujeira é seu afrodisíaco.
O enredo rocambolesco da obra envolve um narrador homossexual constantemente excitado, que obedece a seus instintos e sente-se atraído, inclusive, por uma velha de oitenta anos e por uma cabra; um misterioso submarino alemão, onde os presentes protagonizam suas orgias e gozam o turbilhão da libido; e até a catalepsia do próprio narrador, que volta à vida graças ao seu amigo engenheiro, suspeito de envolvimento com o narcotráfico.
Mesmo quando abandona a família, para viver com o amigo engenheiro – o mesmo personagem envolvido na luta corporal do início do livro –, o narrador continua um prisioneiro. Ele aceita viver a rotina de uma mulher submissa, passiva, alienada, incumbida apenas das responsabilidades relacionadas à limpeza da casa, às refeições e ao sexo diário, no interior do Mato Grosso.
A metamorfose sexual e psicológica do narrador, que se transforma ora em mulher, ora em homem, em seu monólogo interior, é a passagem mais interessante do romance.
Entre os acenos e afagos que desencadeiam os relacionamentos amorosos, João Gilberto Noll impressiona com a atordoada introspecção de seu narrador. O universo sexual de Noll é o mesmo retratado em outros livros: escancarado, infame, amoral. No entanto, em “Acenos e afagos”, uma obra que já é forte candidata ao melhor romance de 2008, Noll retorna ainda mais poético e pornográfico.
Editora: Record
Autor: João Gilberto Noll
Preço: R$ 32,90 (206 págs.)
Avaliação: Excelente
O Gênio Elomar
O motivo do concerto foi o lançamento de seu primeiro livro, “Sertanílias”, publicado de forma independente. Aos 71 anos, Elomar raramente concede entrevistas e não permite ser fotografado - nem mesmo nas noites de autógrafos. O excêntrico compositor reside em um sítio, no interior da Bahia, onde cria cabras, compõem canções em dialeto “sertanezo” e comercializa seus álbuns.
Completamente ignorado pelas mídias massificadoras do país e desconhecido do grande público, Elomar engendrou um universo paralelo, em sua obra, estagnado na Idade Média, com direito a reis, rainhas, menestreis, donzelas e cavaleiros. Do outro lado do universo elomariano está o sertão catingueiro, composto pela seca, fome, religiosidade, esperanças e variações linguísticas.
Entre as canções do concerto, que dialogam com a música erudita e com a música popular, o compositor faz criticas ácidas ao neoliberalismo econômico, reflete sobre o Deus ocidental e analisa o povo brasileiro. Em clima intimista, executa “Faviela”, destacando, com muito esforço, os belos versos do refrão, enquanto os momentos de tensão e harmonia da letra transfiguram seu rosto.
Poucas vezes o homem sertanejo foi tão homenageado diante do caos urbano e da modernidade de São Paulo como com a obra de Elomar. Antes de encerrar a apresentação, Elomar recorda as injustas críticas dos jornalistas Tárik de Souza e “um tal de Mauricio Kubrusly”, que o classificaram, ainda no início da carreira, como “mais um que desceu do Nordeste em busca do sol”. Segundo o compositor, apenas Tárik se retratou da crítica. “E até hoje eu ainda não encontrei o sol”, ironiza.
A entrevista
“Eu gostaria que as minhas canções fossem ouvidas”, disse o compositor, numa rara entrevista, concedida com exclusividade a O Diário após a apresentação. A única exigência é que não seja fotografado. A decisão do compositor é surpreendente, inclusive, para seus amigos, presentes no concerto.
Elomar, você é um músico, um literato, um intelectual. Daqui a 80 anos, como você vai querer ser lembrado?
Daqui a 80 anos, meu ‘fio’, continuo sem querer tirar retrato (risos). Eu até que me sentiria muito bem, se, para onde eu vou, fosse dado saber das coisas que se passam aqui, dentro desse ‘bugaiau’, chamado planeta Terra. Eu gostaria de saber que eu fui completamente esquecido, jogado no ostracismo. Mas jogado dentro de uma ostra e jogado dentro do fundo, do mais profundo mar. Isso sim, o ostracismo. Eu gostaria que as minhas canções fossem ouvidas, admiradas, amadas e levadas em consideração. Canções como “Arrumação”, “O pidido”, “Auto da catingueira”, que falam sobre os retirantes, da peregrinação do homem na terra, dos vaqueiros, do homem do campo, sobretudo, que sempre foi alijado pela sociedade urbana, pelos urbanoides. Não precisam saber o nome do autor.
E, se um dia, suas músicas fossem massificadas, executadas exaustivamente na rádio, como você se sentiria?
Dentro do caixão, eu me viraria todo! Se fizessem a exumação do meu corpo, me encontrariam emborcado lá dentro, todo retorcido!
Por que o número sete é tão relevante para você?
Não só o número sete, mas o três, o oito, o um, o quatorze e o quarenta são números que estão constantemente dentro da arquitetura e dentro da História. Moisés, aos quarenta anos matou um nobre egípcio, foi para o deserto, encontrou Jetro, ficou quarenta anos pastorando ovelhas, voltou, e por mais quarenta anos errou pelo deserto, com o povo de Deus, e morreu com cento e vinte. O pior dos números é o seis, porque se refere ao homem, que é a pior parte que tem nessa numerologia sagrada. Dezessete é uma idade muito bonita, muito marcada em minha vida. Eu canto “está fechando sete tempos”, “já cantei nos sete reinos”. Eu canto porque o sete é bonito, porque é belo. O sete é um número sagrado, o número da perfeição. Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo. O sétimo é fundamental.
A volta do Vampiro de Curitiba
Novo livro de Dalton Trevisan traz assassinos, estupradores, policiais corruptos e fetichistas sexuais em retratos cruéis e enxutos
Em uma época em que escritores vivem rotina de celebridade, com direito a mirabolantes noites de autógrafos, entrevistas em programas televisivos e badaladas conferências literárias, Dalton Trevisan é, antes de tudo, um peixe fora d’água.
O maior contista brasileiro não concede entrevistas há cerca de três décadas, possui apenas duas ou três fotografias imortalizadas em livros didáticos, não comparece a eventos nos quais é homenageado e caminha todos os dias pelas ruas de Curitiba. O cobiçado anonimato garante liberdade para o autor entrar em qualquer lugar, observar desconhecidos e pequenos detalhes de situações alheias, sem ser importunado por seus leitores.
Lançado no final de julho, “O maníaco do olho verde” reúne vinte e seis retratos estarrecedores, cruéis e realistas do submundo, composto por policiais corruptos, traficantes, assassinos, estupradores, prostitutas, alcoolatras e fetichistas sexuais. A prosa poética de Dalton Trevisan, extremamente piedosa com seus protagonistas e de forte crítica social, aproxima o leitor ao mundo da marginalidade, como se as personagens relatassem suas histórias e perspectivas em conversas triviais. Em “O maníaco de olho verde”, a sociedade escuta a voz ativa direto das entranhas da marginalidade.
Aos 83 anos, o “vampiro de Curitiba” recompõe criativamente sobre seus temas prediletos, como velhice e solidão, no excelente “Atira, velho!” e em “Mundo, não aborreça”, que traz o dramático e macabro leito de morte de Ceci.
Para muitas pessoas, Dalton Trevisan é difícil de ser “engolido”, devido a suas estórias recheadas de perversões sexuais. E sobre sexo, Dalton é mesmo insuperável, pois abusa, com maestria, da fórmula dos curtos e perturbadores enredos, como “O Padrasto”, narrado por uma jovem que é molestada pelo próprio padrasto. Na linha do trem, mais fetiches sexuais. O “maníaco” realiza seus ataques em três estórias inesquecíveis: “O assobio do maníaco”, “O maníaco ataca” e “O maníaco do olho verde”.
Poucos escritores dominam enredos tão enxugados e, ao mesmo tempo, tão complexos. Os contos curtos exigem leitores cuidadosos e críticos, que são conduzidos pelo ritmo descompassado da narrativa. Na concisão extrema, minuciosas psiques de anti-heróis são compostas em uma única frase. Portanto, apenas um suspiro ignorado, estrategicamente camuflado entre parágrafos ou frases, pode resultar na compreensão parcial do rico emaranhado psicológico construído por Dalton Trevisan, em sua nova obra-prima.
Publicada em O Diário do Norte do Paraná (14/09/08).
A antiarte de Duchamp
Um urinol virado ao contrário, uma roda de bicicleta montada sobre um banco e até mesmo um simples pente provocam: o que é preciso para algo ser considerado obra de arte?
Inaugurada em julho, a retrospectiva “Uma obra que não é uma obra ‘de arte’”, a maior já realizada sobre o gênio Marcel Duchamp (1887-1968) na América Latina, é simplesmente desconcertante.
Marcel Duchamp: Uma obra que não é uma obra “de arte” permanece no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) até o dia 21 de Setembro. Endereço: Parque do Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, portão 3. De terça a domingos e feriados, das 10h às 18h. Ingresso: R$ 5,50. Crianças até 10 anos e adultos com mais de 65 anos não pagam. Telefone: (0/xx/11) 5085-1300.